sábado, 17 de maio de 2008

Para que sirva de exemplo. Ou não. À simples mediocridade.

Marta era daquelas que sonhava. Vivia pensando no que seria, no que faria, onde tudo aquilo terminaria. Demorava mais de 15 minutos no balcão da sorveteria para saber se queria sorvete de creme ou mais um de chocolate. Terminava optando pelo de limão. Achava a vida amarga. Arriscava-se no piano quando se encontrava sozinha. Musicista frustrada, dizia. Tinha dois peixinhos dourados. Pôs tanta comida no aquário que os coitados morreram de tanto comer. Vivia a procurar de onde viriam as marcas que apareciam. Sempre batendo nos cantos da casa, porém nunca lembrava quando ou por que. Só sabia que essas manchas corpóreas costumavam doer.

Estava sempre em consultórios médicos tentando saber o que lhe afligia. Tinha certeza que dia desses, algum deles descobriria que ela sofria de uma doença terminal. - Saudável como criança, diziam, contrariando sua vontade.
Marta desejava. Passava pela vida deixando-a simplesmente passar. Teve namoricos que nunca lhe renderam mais que algumas semanas. Sabia coisa alguma de política e seu chefe só perguntava sua opinião em último caso. Ou melhor, todos o faziam.

Na repartição onde trabalhava, era transparente. A garota da cópia que nunca fala nada. E pouco interessa aos presentes. Mesmo que possuísse graduação e não fosse contratada para essa função. Alias, formação foi algo que nem ela sabe como conseguiu. Sempre que precisavam de alguém para completar o numero da equipe, chamavam-na. De resto, tinha que se virar sozinha.
De tanto isolar-se, ninguém sabia de onde ela vinha, para onde ela ia ou quem ela seria. Desejava ser notada, entretanto, fazia nada para isso. Sempre calada.

Sozinha em sua casa, Marta um dia conseguiu o que queria. Uma nota no jornal com os seguintes dizeres:

Moça sozinha morre e seu corpo é descoberto já em fase de putrefação. Sem mais detalhes.

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