sábado, 8 de novembro de 2008

As botas de couro estão aqui. Aquela menina que você conheceu ainda está aqui.






"É o rubro da magia dos sentidos... Ascender da
sombra e dançar no centro, de um ponto de luz."


Ana Luar.

***

Entraram na rotina do dia-a-dia. Entre uma conversa sem graça dos dias de domingo pela manhã, se perdem em pensamentos.
Cheirinho de café bem forte. Tinham acabado de levantar, esses dois. Ele ainda com a barba por fazer. Ela de lingerie preta se espalhando por toda a casa.
Ela olhou pra ele que, sem querer, encontrou seu olhar. Riram.

Ela pensava no que ia fazer pro almoço. Domingos são sempre tão chatos. Tinha que fazer feira no dia seguinte. E reclamar com o síndico do prédio.

[Quem diria que aquela moça, chamada de doida por muitos, se tornaria tão boa dona de casa?]

Ele pensava em ligar o computador, checar alguns e-mails provenientes do trabalho em outros fusos horários. Tomar um banho quente, quem sabe criar coragem de se barbear. E talvez andar na praia.

[Quem ousaria pensar que o moço de cabelos despenteados e sempre com sua barba por fazer se tornaria um rato de escritório?]

[Ela põe um blues choroso pra tocar. Um “daqueles” que faz qualquer um querer dançar. E é isso que ela faz. Dança.]


Ainda em sua lingerie preta, dança. Com todo o charme pra ele. Ele observa. Entra no ritmo. Dão-se as mãos. Ela o carrega pela sala. O som de gaita traz o sentimento de liberdade misturado com lembrança. Das tardes divertidas no bar. Dos risos e conversas até o amanhecer do dia. E da ternura que tomava conta do ambiente.

- Hey, você fica linda desse jeito. Achava que ele não existisse mais.
- De que jeito?
- Assim... tão livre. Tão terna e tão segura.
- Meu bem – disse ela entre um riso sarcástico- eu sou assim. Esse jeito só fica obscuro por causa do dia-a-dia. Mas minhas botas ainda estão no armário. E a menina que você conheceu, não tão menina agora, ainda está aqui. Esperando pra te tirar pra dançar.

[Pois bem. A rotina sufoca, castra, irrita e às vezes modifica. Mas nunca tira nossa essência. Ou o gosto pela dança.
Dance! Ao som de um blues, dance. Joguem seu charme e tire o outro pra dançar também. E, quando voltar, guarde as botas no armário. Nunca se sabe quando essa trilha sonora voltará a tocar...]


(Desconheço o autor da imagem. Banco de imagens do Google.)

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