sábado, 17 de janeiro de 2009

Das coisas sobre mim...




"Fiz fantasias. No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio".

Caio Fernando Abreu.

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Eu sou, quem sabe, uma crônica do Caio, um trecho de Drummond ou uma frase de Gullar. Posso ser também uma revistinha de colorir ainda intacta. Lótus seca na água congelada. Ou aquela bebida refrescante num dia quente de verão.


Posso ser astronauta ou ouvinte. Posso querer te contar como foi meu dia ou apenas esperar por um colo. Posso até guardar segredos se quiseres... Cerro os dentes se acuada, feito bicho feroz. Entretanto, também carrego a lealdade de um cão.


Às vezes faço questão de me esconder. Quem não faz, já que se mostrar por inteiro poder ser um problema? Além de acabar com o mistério... Aos poucos, deixo umas dicas aqui, outras acolá... mas apenas em doses homeopáticas.


Pode vir, eu te ouço. Apesar de meio surda, presto atenção. Ou finjo, pelo menos, para que os outros não se sintam menores. Esqueço das coisas grandes facilmente. Porém, certos detalhes não costumam passar despercebidos. E eu os guardo para sempre. Não espere que eu me lembre de você na rua. Além de míope e avoada, só lembro dos que me chamaram atenção. Seja por qualquer motivo. Se não lembrar de ti, não leve para o lado ruim: não me ganhou, contudo também não me irritou. Me irritar realmente costuma demorar também. Não é que eu seja paciente, só tenho o poder de abstrair o que não me convém. E ando muito mais tolerante, ultimamente.


Provavelmente, irás me encontrar sonolenta pelos cantos. Minha preguiça também faz parte da minha essência. E dela também não abro mão. Não se irrite se usá-la como desculpa.
Não gosto de muito barulho, apesar de só ouvir música bem alta. Algo que amo - um bom e velho jazz sempre faz o caos ir embora.


Não tenho muitos amigos. Conheço muita gente, é verdade. Mas são pouco os que quero manter comigo. Muita gente é lembrança do que passou. Deixando saudade ou não. Não faço questão de novas amizades. As que tenho já me bastam e me fazem muito feliz.


Ainda procuro por muita coisa em minha vida. Não quero que ela seja tão pequena que dê para guardar em apenas um discurso. Quero que ela ainda possa escrever muitas crônicas.
Queria saber voar, mas como me faltam asas, pretendo me atirar de muitas alturas ainda. Não por causa da adrenalina, mas pela sensação de liberdade.


E como disse Caio: "Continuo a pensar que quando tudo parece sem saída, sempre se pode cantar. Por essa razão escrevo."


E escrevo, escrevo, escrevo... até que as linhas me calem a dor ou diminuam o êxtase da alegria.

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Das coisas que eu nunca digo. Ou que ninguém vê.




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A gente se faz de forte quando deve. Quando não deve também. O mundo lá fora julga quem não o é. Poucos são os que têm ouvidos. E se tem ouvidos, não falam. De que adianta? Sobem os muros ao redor. Trenas e fitas não serão suficientes. Escadas? Seriam difíceis de ser construídas.

Vai lá... abre a boca. Diz o que te aflige. Mais uma vez, te pego no colo. Mas... e se eu precisar, você cuida de mim? Você ouve meus problemas e enxuga minhas lágrimas? Me faz rir com cocegas e me enche do sorvete que eu gosto?


Se eu cair, quem me ampara a queda? Quem segura a minha mão quando eu precisar levantar? Quem me faz cafuné enquanto eu tento relaxar? Minhas mãos já seguram tanto... Minhas costas já carregam tanto. O peso é tão grande e anda se acumulando tanto que eu não sei mais se posso carregar.


Quem se candidata a entrar pela porta e dizer o que preciso ouvir? Não tô pedindo o que eu quero, até porque, às vezes, ouvir o que se quer faz muito mal. Entretanto, rogo por uma mão que me toque onde mais preciso. Um tapinha nas costas me lembrando que tem alguém ao lado pra me segurar quando eu precisar. Pra me dizer "se acalma, isso já vai passar". Respondo que não passa. Não passa! Pode até ficar apagado entre tantas cores que surgem com o sol. Contudo, tá sempre aqui. Adormecido. E volta. Volta quando o breu cobre o dia.


A vela que carrego só ilumina a trilha dos outros. E não aparece ninguém com lanternas pra iluminar o meu caminho.


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