domingo, 19 de abril de 2009

Confissão.




"(...) e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia: fechada, sozinha, perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada."

Caio Fernando Abreu.

***


Confesso que não sei em que esquina perdi minha inspiração. Não sei se foi naquela em que demos nosso último abraço... Ou na qual eu fui para chorar pela última vez enquanto lembrava de ti. Pode ter sido também ao trancar a porta. Ou num banho demorado em que mais uma vez lembrei de você. De nós. Do que éramos juntos. Ela pode ter escorrido junto às
lágrimas pelo ralo.


O fato é que a perdi. Desde que passei a perceber o silêncio dentro da casa e, mais especificamente, dentro de mim, a perdi. E, ao perdê-la, confesso que também me perdi. Perdi o ânimo, a vontade para preencher o vazio. Ficou só a falta. E ela ocupa um espaço pequeno agora. Ficou outro grande espaço ainda a ser preenchido. Só não sei com o quê.


Confesso que ando atenta. Não tenho mais aquele jeito distraído de quando você estava por perto. Ando ouvindo o sussurro do vento, o barulho dos carros, mas não ouço mais
passarinhos. Nem vejo as borboletas amarelas no jardim.


Confesso que precisava acabar. Mas que não sabia que ia sobrar tanto vazio. Vazio esse que não sei se quero preencher novamente.


É... confesso que não sei em que esquina perdi minha inspiração. Ou quando me perdi.

(Foto por: desconheço o autor. Banco de imagens do Google.)

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